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O Natal e a origem do Papai Noel

O Natal, para os cristãos, é o nascimento de Jesus, o Cristo. E o que esta data tem a ver com o Joulupukki, nome dado ao Papai Noel, na Finlândia; Julenissen, na Noruega; e com São Nicolau, o amigo das crianças e santo protetor dos marinheiros, mercadores e endividados?

A escritora Zia Stuhaug, brasileira que vive há dez anos na Noruega, e lançou recentemente Anjo Russo, um romance do gênero Scandi-crime, visitou no ano passado Rovaniemi para compor algumas cenas do livro. É onde fica o escritório oficial do bom velhinho, no Polo Norte, divisa com a Lapônia Finlandesa, em concorrência com o escritório do Julenissen, em Drøbak, na Noruega. Ela irá nos contar o que descobriu sobre a lenda do personagem mais popular da época natalina — depois do Menino Jesus.

São Nicolau x Papai Noel
Há uma grande semelhança na aparência, motivo pelo qual faz confundir estas duas figuras distintas, mas tratadas como sendo um único personagem, sempre relacionadas à época do Natal.

Vamos conhecer um pouco sobre São Nicolau, que provavelmente deu origem ao Papai Noel de hoje, e saber o que levou o cartunista americano Thomas Nast, em 1939, a criar um personagem parecido com o santo que, depois de Maria, a mãe de Jesus, é o mais retratado por artistas medievais.

São Nicolau foi canonizado pela Igreja Católica, por terem sido atribuídos a ele muitos milagres. Viveu na cidade portuária de Mira, uma antiga cidade grega de Lícia — hoje, a localidade de Demre, na Turquia —, no século IV. Após ouvir os conselhos de um tio, viajou para a Terra Santa depois da morte de seus pais. Dizem que, no percurso da viagem, deu-se uma terrível tempestade e, quando São Nicolau rezou, a calmaria se estabeleceu. Sendo assim, ele se tornou padroeiro dos marinheiros e mercadores. Na Grécia antiga, ele era o amigo do mar, e as pessoas acreditavam que, se invocassem o seu nome, ele poderia salvá-las de se afogar, numa substituição a Poseidon, o deus pagão do mar, motivo pelo qual muitas cidades costeiras levam o seu nome.

Dizem que ele era filho de pais nobres e ricos e doou sua grande herança aos pobres. Mas há quem diga que esse fato pertence a outro santo, o São Basílio de Cesareia, também chamado de São Basílio Magno ou Basílio, o Grande.

O fato é que São Nicolau nunca foi apegado a bens materiais e sentia alegria em ajudar os necessitados. De uma personalidade dócil e com tendência a auxiliar crianças e pessoas carentes, foi tomado de zelo pela educação e moral, tanto dos pequenos quanto de suas mães, o que levou os estudantes europeus a reverenciá-lo. Há na cidade de Guimarães, em Portugal, uma festa estudantil chamada Festas Nicolinas, que se realiza próximo da data da morte do santo, dia 6 de dezembro, e em sua homenagem.

São Nicolau foi o exemplo de solidariedade ao próximo. Certa feita, livrou três moças de serem enviadas à prostituição pelo pai, um comerciante com as finanças arruinadas, que num momento de desespero, por causa da extrema pobreza em que se encontrava, não tinha recursos para sustentá-las, nem o dinheiro do dote para que elas pudessem se casar. Dizem que São Nicolau jogou três sacos de moedas de ouro pela chaminé da casa da família, e o saco caiu em cima das meias das moças, que tinham sido colocadas na lareira para secar.

Nicolau tornou-se bispo no período entre o paganismo e o grande avanço do cristianismo. Pregava o evangelho do amor fraterno e da caridade e foi perseguido por  Diocleciano e Maximiano. São Nicolau teria sido preso, mas foi libertado quando Constantino se tornou imperador. Sua luta não acabava ali. Teve que enfrentar, então, o arianismo, uma heresia pregada por Ário, que negava a divindade de Cristo. Há relatos de que ele lutou tanto para acabar com essa heresia em Mira, que chegou a esbofetear um defensor de Ário no meio de um debate, em uma assembleia. Uma biografia de São Nicolau, escrita cinco séculos após a sua morte, em 6 de dezembro de 350, revela que Mira ficou livre dessa heresia graças à intensa pregação de seu bispo.

São Nicolau foi amado e reverenciado por toda a Europa. Depois que seus restos mortais foram transferidos para a cidade de Bari, na Itália, em 1087, e de receber muitos relatos de milagres por seus devotos, a Igreja Católica canonizou São Nicolau. Não se sabe se antes ou depois daquele ano, mas o dia 6 de dezembro foi intitulado o Dia de São Nicolau. Sua imagem e história de vida o popularizaram como um senhor de feições muito serenas, trajado de bispo, com batina branca e estola vermelha e com mitra — ornamento episcopal para a cabeça —, e as mãos firmes segurando um báculo — tipo de cajado igual ao dos pastores de ovelha. Pela sua bondade e afeição com as crianças e pelo relato do saco de moedas de ouro jogado na chaminé da família das três moças, logo os relatos se popularizaram, associando-o ao bom velhinho com um saco de presentes nas costas. A imaginação popular não parou por aí. Logo trouxeram alguns personagens do folclore europeu para lhe servir de ajudantes. Afinal, o saco com presentes era enorme e as crianças, muitas. E não eram todas elas que podiam ganhar presentes e, sim, as que se comportassem bem durante o ano. Assim, logo foi difundida a imagem, em desenhos, do ajudante de São Nicolau. Na Holanda tornou-se popular São Nicolau (Sinterklaas) ter um ajudante chamado Pedro Preto (Zwarte-Piet), que, segundo a lenda, tem essa cor devido às cinzas das chaminés por onde ele tem que passar para deixar os presentes. Houve, recentemente, protestos na Holanda para que esse personagem, avaliado como de fundo racista, fosse eliminado dos festejos natalinos, por criar desconforto na minoria daquele país. Isso porque o ajudante tem características que se mostram bem opostas à bondade de São Nicolau, sendo a ele atribuída a escolha das crianças merecedoras dos presentes e doces natalinos, e, com isso, associado ao Bicho-Papão ou Homem do Saco, cujas imagens de severidade impuseram medo à criançada.

A origem do Papai Noel
Em 1700, os emigrantes holandeses levaram Sinterklaas à América, onde abriram sua primeira igreja a São Nicolau em Nova Amsterdã, mais tarde, a cidade de Nova Iorque. Lá ele foi chamado de Santa Claus.

O teólogo Clement C. Moore escreveu um poema para suas filhas, com o título: “Uma visita de São Nicolau”, em 1823. Uma senhora chamada Harriet Butler tomou conhecimento do poema através das filhas de Moore e o levou ao editor do Jornal Troy Sentinel, em Nova Iorque, que o publicou no Natal desse mesmo ano, sem fazer referência ao seu autor. Só em 1844 é que Clement C. Moore reclamou a sua autoria. No poema descrevia um pai de família que, na véspera de Natal, estava tranquilo em sua casa, onde nem mesmo um camundongo se movia. Ele ouviu um barulho no quintal e olhou pela persiana. A noite estava clara por causa da luz da lua e o chão, forrado de neve. Ele ficou surpreso ao se deparar com um trenó em miniatura, cheio de presentes, puxado por oito renas pequenininhas, e conduzido por um velhinho tão esperto e ágil, que andou pelo telhado e desceu pela chaminé para deixar os presentes de Natal. Após encher as meias que estavam penduradas na lareira, saiu da mesma maneira como entrou, ficando com o casaco vermelho cheio de fuligem das cinzas. Ele soube naquele momento que era a visita de São Nicolau.

O poema descrevia um São Nicolau de cabelos e barba tão brancos quanto a neve. As bochechas rosadas e o nariz como uma cereja, rosto largo e uma barriga redonda e saliente que, quando ele sorria, se mexia como uma tigela cheia de gelatina.

Thomas Nast ilustrou a poesia de Moore na edição de Natal da Revista Harper’s Weekly, em 1863 e em 1881.

O Papai Noel de botas, de rosto corado e com característica polar, sentado em uma cadeira no seu escritório, no Polo Norte, lendo uma lista de presentes pedidos pelas crianças do mundo todo tornou-se muito popular. Aproveitando-se dessa fama e interesse no personagem natalino, a Coca-Cola alimentou ainda mais o imaginário popular ao lançar, em 1931, uma propaganda com a nova versão de São Nicolau oferecendo a bebida a uma garotinha. Na imagem ele usava casaco mais curto, um gorro vermelho no lugar da mitra, e tinha a barriga saliente descrita pelo poema de Moore. Nascia a lenda atualizada da imagem do Papai Noel que hoje vemos por todo lugar, em épocas natalinas.

A popularidade da nova versão de São Nicolau, na figura de Papai Noel, fez tanto sucesso que a cidade Finlandesa de Rovaniemi, que fica na divisa com o Polo Norte, investiu para construir o correio oficial do Papai Noel: Santa Claus‘ Main Post Office, em concorrência com Drøbak, na Noruega. Lá é possível sentar-se junto à lareira e escrever cartas ao Joulupukki, enquanto duendes e elfos andam de lá para cá, ajudando o bom velhinho a selar e despachar todas as cartas-respostas. O correio fica dentro do complexo da Vila do Papai Noel, no Círculo Polar Ártico, e foi todo construído para se ter um Natal de sonhos. Luzes coloridas, neve por toda parte, renas, cachorros huskies, e, se tiver muita sorte, aurora boreal. O lugar é muitíssimo concorrido e, para se conseguir hospedagem, é preciso reservá-la com bastante antecedência.

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São Nicolau e seus ajudantes sinistros
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Em Rovaniemi, o Santa Claus‘ Main Post Office recebe cerca de 32 mil cartas por dia, na época do Natal, de 198 diferentes países. Ao todo chegam a meio milhão de cartas por ano. Os seis principais países a enviarem cartas ao Papai Noel finlandês são:
1- Itália
2- Reino Unido
3- Polônia
4- China
5- Finlândia
6- Rússia e Japão

Na Noruega, a Casa do Papai Noel (ou Julehuset, em norueguês), bem como seu escritório onde fica o Correio especial para receber cartas das crianças, situa-se em Drøbak, cidade de pouco mais de 13 mil habitantes no condado de Arkehus, a 35 km ao sul de Oslo, a capital da Noruega. Segundo dados do Drøbak Turistinformasjon, o departamento de informações turísticas de Drøbak, cerca de 250 mil cartas chegam todos os anos ao Papai Noel (Julenissen), na época das festas natalinas.

É possível receber cartas do correio “noelense” com Certificado de Bom Comportamento do Pai Natal. O idioma em português usado é o falado e escrito em Portugal.

Para quem quiser escrever para o Papai Noel (Joulupukki), no Círculo Polar Ártico, o endereço segue abaixo:

Santa Claus‘ Main Post Office
Tähtikuja 1 96930 Arctic Circle, FINLAND.
Para quem quiser escrever para o Papai Noel (Julenissen), na Noruega, o endereço segue abaixo:
Havnebakken
1440 DRØBAK
Norway
As cartas poderão ser escritas em qualquer idioma, pois um duende auxiliar traduzirá para o idioma do Joulupukki ou do Julenissen.

Feliz Natal em finlandês: Hyvää joulua!
Feliz Natal em norueguês: God Jul!

Texto escrito por Zia Stuhaug

Fontes consultadas:

  • Berg, Knut Anders, Liv Berit Tessem og Kjetil Wiedswang 1993. Julen i norsk og utenlandsk tradisjon, Gyldendal norsk forlag, Oslo.
  • Hodne, Ørnulf 2007. Jul i Norge. Gamle og nye tradisjoner, Cappelen, Oslo.
  • Julehuset i Drøbak
  • Santa Claus’ Village – Santa Claus – Arctic Circle – Rovaniemi – Lapland – Finland –

Zia Stuhaug - Todos os Direitos reservados

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